Mastocitose

«A mastocitose pode provocar sintomas muito variados e, por vezes, preocupantes. Um diagnóstico preciso e um acompanhamento personalizado são fundamentais para que os doentes possam viver com segurança e qualidade de vida.»

DRA. MARTA FERRER PUGA
ESPECIALISTA. DEPARTAMENTO DE ALERGOLOGÍA E IMUNOLOGÍA CLÍNICA

Merco Salud 2025 Imagem do selo de reconhecimento de alergias. Clínica Universidade de Navarra

O que é a mastocitose?

A mastocitose é um conjunto de doenças raras, com uma prevalência estimada de menos de 5 casos por cada 10.000 habitantes. A sua característica principal é a proliferação e acumulação anormal de células do sistema imunitário chamadas mastócitos. Estas células, que se originam na medula óssea, acumulam-se em diferentes tecidos, principalmente na pele.

É importante diferenciar as suas duas formas principais:

  • Mastocitose cutânea (MC), mais típica na infância, em que os mastócitos anormais se acumulam unicamente na pele.
  • Mastocitose sistémica (MS), mais própria dos adultos, na qual, além da pele, existe atingimento de órgãos internos como a medula óssea, o baço, o fígado ou o trato gastrointestinal.

Embora a maioria dos doentes, tanto crianças como adultos, apresente um curso clínico indolente e um bom prognóstico, a relevância de um diagnóstico correto é fundamental. Os mastócitos podem libertar substâncias como a histamina e provocar desde prurido ou manchas na pele até dor abdominal ou reações graves como a anafilaxia. Um seguimento médico adequado é essencial para controlar os sintomas e melhorar a qualidade de vida.

Quais são os sintomas da mastocitose?

As formas mais frequentes de mastocitose cursam com sintomas cutâneos e episódios semelhantes a uma reação alérgica, enquanto as formas avançadas provocam complicações mais graves devido a lesão de órgãos

A mastocitose pode provocar sintomas muito diferentes segundo dois mecanismos principais:

  1. Libertação de substâncias químicas pelos mastócitos (como a histamina).
  2. Infiltração destes mastócitos em órgãos internos, algo mais próprio das formas avançadas.

Sintomas por libertação de mediadores

São os mais frequentes e assemelham-se às reações alérgicas:

  • Ao nível cutâneo: manchas castanhas ou avermelhadas que podem causar prurido e rubor com o calor ou com o ato de coçar (sinal de Darier), prurido persistente, episódios de rubor súbito (flushing) e, em crianças pequenas, bolhas sobre as lesões.
  • Ao nível geral: dor abdominal, diarreia, náuseas, azia, palpitações ou pressão arterial baixa.
  • Anafilaxia: em alguns doentes ocorrem reações alérgicas graves que podem colocar a vida em risco, desencadeadas por picadas de insetos, fármacos, álcool ou certos alimentos.
  • Sintomas neuropsiquiátricos: fadiga, dores de cabeça, irritabilidade ou problemas de memória e concentração.

Sintomas por infiltração de órgãos (mastocitose sistémica avançada)

Nas formas mais agressivas de mastocitose, os mastócitos acumulam-se em órgãos internos. Esta infiltração pode lesar os tecidos e alterar o seu funcionamento normal, provocando sintomas mais graves:

  • Aumento do volume de órgãos: o fígado (hepatomegalia), o baço (esplenomegalia) e os gânglios linfáticos (linfadenopatias) podem aumentar de tamanho. O aumento do baço, em particular, costuma causar dor na parte superior esquerda do abdómen.
  • Envolvimento da medula óssea: pode originar citopenias, isto é, uma diminuição das células sanguíneas: anemia (falta de glóbulos vermelhos), plaquetas baixas (risco de hematomas ou hemorragias) ou leucopenia (defesas baixas).
  • Problemas ósseos: a dor crónica, a osteoporose, as fraturas espontâneas e as lesões ósseas são relativamente frequentes, sobretudo em homens jovens sem outros fatores de risco.
  • Sintomas gerais ou constitucionais: perda de peso inexplicável, cansaço intenso e fraqueza, quase exclusivos das variantes mais agressivas.
  • Disfunção hepática: a infiltração do fígado pode causar acumulação de líquido no abdómen (ascite) e aumento da pressão nas veias hepáticas (hipertensão portal).
  • Malabsorção intestinal: o envolvimento do tubo digestivo dificulta a correta absorção de nutrientes, o que pode originar perda de peso e níveis baixos de proteínas, como a albumina.

Tem algum destes sintomas?

Se suspeita que apresenta algum dos sintomas mencionados,
deve procurar um especialista médico para diagnóstico

Quais são as causas da mastocitose?

A mastocitose deve-se, na maioria dos casos, a uma alteração genética num gene chamado KIT, que regula a vida e o funcionamento dos mastócitos. Uma mutação neste gene faz com que os mastócitos se ativem e se multipliquem sem controlo, acumulando-se na pele e noutros órgãos e libertando substâncias químicas de forma excessiva.

É importante salientar que não costuma ser uma doença hereditária. A mutação surge de forma espontânea em determinadas células do organismo, pelo que não é transmitida aos filhos. Apenas em casos muito excecionais se observou um componente familiar.

Complicações da mastocitose

As complicações podem dever-se tanto à libertação excessiva de substâncias químicas como à infiltração de órgãos. A mais grave é a anafilaxia, uma reação alérgica potencialmente fatal desencadeada por picadas de insetos, fármacos ou certos alimentos.

Nas formas avançadas, a doença pode causar problemas na medula óssea (anemia, plaquetas baixas), aumento do fígado e do baço, alterações ósseas (osteoporose, fraturas) ou dificuldade em absorver nutrientes. Embora pouco frequente, existe risco de progressão para variantes mais agressivas.

Estes sintomas, juntamente com o cansaço e o impacto emocional, podem afetar de forma significativa a qualidade de vida.

Como se diagnostica a mastocitose?

O diagnóstico combina a suspeita clínica com exames específicos. O processo começa com a história clínica e o exame físico, em que as lesões cutâneas são a pista mais frequente. As manchas castanhas ou avermelhadas que ficam vermelhas e causam prurido ao serem friccionadas (sinal de Darier) orientam fortemente para o diagnóstico. Para confirmar a doença, pode ser necessária uma biópsia cutânea e, nos casos suspeitos de formas sistémicas, uma biópsia da medula óssea. Estes estudos permitem demonstrar a acumulação anómala de mastócitos.

A análise genética para pesquisa da mutação do gene KIT é um passo-chave, uma vez que está presente na maioria dos adultos com mastocitose sistémica.

Também se mede frequentemente a triptase no sangue, uma enzima produzida pelos mastócitos, cujo aumento pode indicar uma maior carga de doença. De acordo com os sintomas e a idade, podem ainda ser solicitadas análises de sangue completas, ecografias ou densitometria óssea, com o objetivo de avaliar a extensão da doença e as suas possíveis complicações.

Como se trata a mastocitose?

O acompanhamento da mastocitose em unidades especializadas é essencial para melhorar a qualidade de vida dos doentes

Atualmente, não existe cura para a mastocitose. O objetivo do tratamento é controlar os sintomas, prevenir complicações e, nos casos mais avançados, reduzir a quantidade de mastócitos anómalos. As estratégias terapêuticas variam consoante o tipo de mastocitose e a gravidade da doença.

Tratamento sintomático

É a base do tratamento na maioria dos doentes, especialmente nas formas cutâneas e indolentes. Procura reduzir os efeitos dos mediadores químicos libertados pelos mastócitos:

  • Anti-histamínicos H1 e H2: para controlar prurido, urticária, rubor e queixas digestivas.
  • Estabilizadores de mastócitos: como cromoglicato de sódio ou cetotifeno, úteis nos sintomas gastrointestinais.
  • Antagonistas dos leucotrienos e inibidores da bomba de protões: aliviam problemas digestivos e o excesso de ácido.
  • Corticóides tópicos ou fototerapia: utilizados em lesões cutâneas extensas ou resistentes.
  • Corticóides sistémicos: reservados para casos mais graves e pontuais.

Além disso, recomenda-se evitar desencadeantes como álcool, stress, certos medicamentos (AINEs, opiáceos), alimentos picantes ou picadas de insetos.

A anafilaxia é uma das complicações mais graves da mastocitose e pode surgir de forma inesperada. Trata-se de uma reação alérgica generalizada que pode colocar a vida em risco se não se atuar de imediato. Nos doentes com mastocitose, a probabilidade de a sofrer é muito superior à da população geral.

Os sintomas típicos incluem rubor súbito, prurido generalizado, dificuldade em respirar, tonturas, quedas bruscas da tensão arterial, taquicardia e, em casos graves, perda de consciência. Por vezes, em adultos sem lesões cutâneas, predominam os sintomas cardiovasculares, o que pode atrasar o diagnóstico.

Os desencadeantes mais habituais são as picadas de abelhas ou vespas, certos medicamentos (anti-inflamatórios, opiáceos, contrastes radiológicos), o álcool, alimentos picantes ou mesmo o stress físico ou emocional. Evitar estes fatores é uma parte essencial da prevenção.

É essencial transportar sempre um autoinjetor de adrenalina (epinefrina). Este dispositivo atua rapidamente para reverter os sintomas mais perigosos, como a hipotensão ou a dificuldade respiratória. Tanto o doente como as pessoas mais próximas devem receber formação sobre como e quando o utilizar. Além disso, o médico pode recomendar o uso combinado de anti-histamínicos e corticóides após a crise para ajudar a estabilizar o doente.

Nas mastocitoses sistémicas agressivas ou com envolvimento de órgãos, o tratamento procura reduzir o número de mastócitos e controlar a lesão.

Terapêuticas convencionais: interferão alfa, cladribina ou hidroxiureia em alguns casos.

Inibidores de KIT:

  • Midostaurina (Rydapt®).
  • Avapritinib (Ayvakit®), eficaz contra a mutação KIT D816V, inclusive em formas indolentes.
  • Imatinib, em doentes sem a mutação D816V.

Transplante de células estaminais: opção excecional em doentes jovens com formas muito agressivas que não respondem a outros tratamentos.

Novos fármacos em investigação: como Bezulastinib e Elenestinib, que mostram resultados promissores em ensaios clínicos.

Departamento de Alergologia
da Clínica Universidad de Navarra

O Departamento de Alergologia e Imunologia da Clínica integra a Global Allergy and Asthma European Network, composta pelos 25 melhores departamentos de Alergologia da Europa, selecionados pela sua excelência científica, trabalho multidisciplinar, atividade docente e projeção internacional.

Dispomos das técnicas de diagnóstico mais avançadas, estamos na vanguarda da investigação e colaboramos com os melhores especialistas. Contamos com mais de 50 anos de experiência assistencial.

Que doenças tratamos?

Imagen de la fachada de consultas de la sede en Pamplona de la Clínica Universidad de Navarra

Porquê na Clínica?

  • Mais de 60 anos de experiência.
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  • Enfermagem especializada em doenças alérgicas e nos seus cuidados.